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No dia 9 de novembro de 2015 a Escola Estadual Diadema, no ABC paulista, iniciou a onda de ocupações escolares que veio a barrar a proposta de reestruturação da rede escolar do Estado de São Paulo imposta pelo governador Geraldo Alckmin. Provavelmente, esta não foi a primeira vez que uma escola fora ocupada em toda a história do Brasil. Mas a partir desta mobilização estudantil apontou-se uma alternativa em potencial para protestar.

Agora, novas escolas vêm sendo ocupadas e em cenário nacional. A vitória do movimento estudantil paulistano inspirou a estudantada de todo Brasil. Dessa vez contra as propostas do Congresso e do Governo Federal de corte nos gastos públicos (PEC 241) e de reforma no ensino médio (MP 746). Hoje, já são mais de 1100 escolas por todo o país, mais de 60 aqui Espírito Santo. Consagrando, assim, uma nova face da mobilização popular.

Li recentemente o ensaio Base e superestrutura na teoria cultural marxista escrito por Raymond Williams. Para além das contribuições no campo da teoria cultural, este texto me apresentou elementos analíticos que neste momento de mudanças podem ser de grande pertinência.

O crítico literário galês após refletir em cima das já consagradas contribuições de Lukács e Gramsci formula duas categorias para pensar as alternativas culturais ou de oposição à cultura dominante: culturas residuais e emergentes. As primeiras estão ligadas ao passado, como valores religiosos. Mas é a ideia de cultura emergente a que venho chamar atenção.

Por “emergente” entendo, primeiro, que novos significados e valores, novas práticas, novas significações e experiências, são criadas continuamente. Mas a tentativa de incorporá-las é imediata, só porque são parte – e ainda assim nem mesmo uma parte definida – da prática contemporânea efetiva. De fato, é significativo como essa tentativa é rápida em nosso tempo, e como a cultura dominante está alerta, agora, a qualquer coisa que possa ser tida como emergente (WILLIAMS, 2005, p. 219).

A partir dessa proposição podemos compreender que a cultura dominante não simplesmente suplanta ou consome qualquer tipo de ideal que não seja favorável. Na verdade há uma disputa constante e principalmente, uma tentativa de incorporar ou de abafar até asfixiar novas formas culturais.

As ocupações escolares são, então, a cultura emergente de luta popular e tem mostrado grande efetividade na disputa contra a cultura dominante. Em um momento histórico onde as mobilizações trabalhistas têm sofrido seguidas derrotas, as organizações políticas têm perdido espaço nas lutas populares, os partidos políticos em geral vêm perdendo credibilidade, e a esquerda ainda não conseguiu se consolidar em um momento de retrocessos, o movimento estudantil, principalmente o secundarista, renova suas estratégias e consegue ganhar batalhas e apoio popular.

Isso não quer dizer de forma alguma que o movimento sindical e as greves, as manifestações de rua, as organizações populares e políticas perderam sua validade e apenas essa nova estratégia é viável neste momento histórico. Pelo contrário, tais formas de oposição à cultura dominante são de grande importância histórica. Mas cada dia que se passa, a classe dominante articula-se de para incorporar as culturas emergentes. Assim, vemos incessantes ataques pela mídia contra as manifestações de cunho popular e vemos os sindicatos e as greves perderem força através de decisões jurídicas.

E como era de se esperar, a mídia, os governos estaduais, o MEC, enfim, o que podemos classificar – apesar de não ser uma relação meramente mecânica – de representantes da cultura dominantes começam a se articular na tentativa de enfraquecer as ocupações, seja mudando o dia das provas ENEM nas escolas ocupadas, ou reportagens incitando a opinião pública contra os estudantes, liminares judiciais para regular as ocupações, até decisões judiciais menos brandas, como reintegração de posse ou legitimando a violência contra os ocupantes.

Nesta constante disputa são imprescindíveis novas formas de oposição à hegemonia. Apesar das constantes ofensivas, não irão acabar com o ímpeto das organizações estudantis e trabalhadoras. Assim, minha defesa é a da necessidade que se aprenda com esse novo momento. Que os sindicatos consigam renovar-se como conseguiu o movimento estudantil. Que as greves voltem a ser perigosas.

Fontes:

WILLIAMS, Raymond. Base e superestrutura na teoria cultural marxista. Revista USP, n. 66, p. 209-224, 2005.

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