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Sinopse: https://filmow.com/o-ignorante-t200939/

Brincar com gêneros, com conceitos, com a própria estética cinematográfica é uma tarefa necessária para a renovação do cinema. Até mesmo para refletir sobre a forma fílmica atual. Mas para obter êxito é necessária uma reflexão, uma finalidade. Caso contrário, as subversões técnicas soarão como capricho da direção, quando não perderem o sentido.

Está posto aí o grande problema de O Ignorante (Le cancre, 2016), que me fez várias vezes questionar o porquê de coisas tão grosseiras acontecerem na tela. A mais recorrente delas foi me indagar por que ficamos ouvindo o tempo todo o pensamento de Rodolphe (Paul Vecchiali)? Podem me responder que é para dar sentido a narrativa, as lembranças do passado urgem na busca de nosso protagonista por seu grande amor. Mas isso não convence. Apesar das lembranças desta personagem não serem sempre concisas, é enfadonho saber tudo que se passa em sua cabeça e é pior ainda quando o filme responde imediatamente as suas vontades. E o mais grave! Intercalando conversas incessantes com os pensamentos de Rodolphe, há pouco silêncio no filme – o que poderia contribuir bastante para expressão dos sentimentos e dar mais força ao drama.

Uma quantidade absurda de personagens descartáveis e suas inúmeras subtramas que deveriam contribuir para a construção da trama principal, só me faziam pensar na quantidade de tempo perdido escutando histórias sem propósito, que mais pareciam terem sido improvisadas na hora, tamanha desimportancia destas. A narrativa se delonga de forma dispensável. Até mesmo quando o filme já havia acabado, ficamos olhando para a cara Laurent (Pascal Cervo), por mais 2 ou 3 minutos, com a mesma expressão. Mas é talvez o único espaço de silêncio reflexivo do filme.

Outra opção desagradável de Paul Vecchiali, que dirige, roteiriza e protagoniza esta história, é a escolha por efeitos especiais, cenários e atuações, por diversas vezes, toscos. Pode-se argumentar que tal opção se deve em primeiro lugar ao baixo orçamento e, enfim, para dar um ar de antiquado a narrativa. Dar uso ao que está fora de uso. Mas isso é feito de forma tão grosseira, que perde a capacidade reflexiva ou mesmo de fazer rir. É apenas estranho, para não dizer ruim.

Assim, a potência que esta película poderia ter tanto para o drama, tanto para a comédia é desperdiçada em escolhas questionáveis que soam ao final mais como pedantismo inovador do que simplicidade estética.

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