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Quando falamos em filmes, logo pensamos em Hollywood, é inevitável. De fato, as produções da grande indústria cinematográfica são mais massificadas e, por isso, são mais lembradas por nós. Mas há quem goste de outras escolas de cinema, como a francesa, a grega e a asiática, produções essas que estão bem longe dos cartazes dos chamados “cinemões” tradicionais que conhecemos.

Aqui em Vitória, felizmente, temos ótimas alternativas ao cinema comercial. Um dos mais charmosos e reconhecidos cinemas desse circuito, digamos, fora da caixinha, é o Cine Jardins, localizado no bairro de Jardim da Penha, área nobre de Vitória. O Carta ao Tom, 74 foi até o shopping de mesmo nome para conversar com Talmon Fonseca Junior, o Juninho, que estava à nossa espera na bilheteria do Jardins.

Talmon é produtor cultural formado em História e trabalha com cinema há mais de 20 anos, frequentando vários cinemas e cineclubes, trabalhando em locadoras como a Século Vídeo Um, já foi dono de sebo e também esteve na inauguração do Cine Metrópolis da Ufes. No entanto, vamos contar essas e outras curiosidades a seguir. Vamos lá!

Época do Cine Metrópolis

Antigamente, o Cineclube Universitário organizava sessões em salas de cinema adaptadas na Ufes. No entanto, não só a instituição e seus alunos, mas a cidade inteira urgia por uma nova agitação. Foi então que decidiram ampliar a atuação deles. “Para consolidar essa nova fase, abrindo as sessões para a cidade agora como um legítimo cinema, o projeto recebeu o nome de Cine Metrópolis”.

Após uma grande reforma, finalmente em janeiro de 1992 foi inaugurado o Cine Metrópolis. Época na qual Talmon considera seu grande aprendizado, pois fazia de tudo: ficava na gerência, fazia Relações Públicas, buscava filmes no aeroporto, assistia o filme junto com o crítico e, se precisasse, até limpava a sala. “Só não aprendi a passar filme”, disse.

Segundo ele, o objetivo do Cine Metrópolis é semelhante à proposta atual do Cine Jardins. “O nosso objetivo na época era trazer filmes que nunca chegariam a Vitória por intermédio do ‘cinemão’. Além disso, queríamos que o cinema fizesse uma ponte com as ruas, tirassem as pessoas de casa para que assistissem as obras e pudessem dialogar sobre o que viam”.

Uma nova fase: Cine Jardins

O Shopping Jardins já teve sua época de “cinemão”. Ele começou em 2006 como Cine Ritz Jardins e exibia os grandes lançamentos do cinema comercial, ou seja, produções bem Hollywoodianas. O objetivo era atrair o público/consumidor de Jardim da Penha e, lógico, lojistas.

Com o tempo, um novo perfil foi adotado. Era mais mesclado, trazendo o cinema comercial e alternativo para as suas salas. Talmon, no entanto, ao começar a trabalhar no shopping, decidiu mudar novamente, escolhendo pelo cinema alternativo.

“Em primeiro lugar, trabalhar num cinema meramente comercial é muito ruim. É um público pouco atento à obra cinematográfica, inconsistente e imediatista, querem respostas rápidas para suas perguntas. E em segundo lugar, o encontro entre os fãs do ‘cinemão’ e os fãs alternativos não era legal e para trabalhar com profissionalismo é necessário saber definir o padrão da clientela”, explicou.

Assim como a ideia do Cine Metrópolis, o Jardins começou a exibir filmes que dificilmente seriam trazidos a Vitória por meio dos cinemas comerciais. Lá você encontra produções dos quatro cantos do mundo, inclusive do cinema brasileiro e do americano. Claro que longe do “mainstream”. Para Talmon não foi nada arriscado fazer esse movimento. “Não tive nenhum problema em assumir esse perfil. Quando cheguei ao Jardins, eu era o resultado do amadurecimento do Talmon do Metrópolis. Foi só pôr em prática”.

E deu certo. Além de atender o público mais fidelizado, ele acredita que muita gente cansou da mesmice do cinema convencional. “Foi mais rápido do que eu imaginava. Os filmes dos outros shoppings costumam ser tão ruins que começamos a ganhar público mais rápido. Você já imaginou intelectuais como médicos, advogados e outros profissionais que passaram anos estudando duro ficarem presos a filmes como Capitão América para sempre?”, brincou.

Para ele, o cinema alternativo tende a crescer ainda mais, mesmo com esse período de crise político-econômica. “Nesta tal crise, o mais prejudicado foi o cinema comercial. O alternativo, em contrapartida, é barato e tem um público consolidado com um poder econômico até considerável. E com a digitalização, facilitou ainda mais o crescimento da oferta de títulos. Só para você ter uma ideia, o Jardins esse ano já bateu o público do ano passado”.

Ao ser perguntado sobre como ele define o perfil do Jardins, Talmon define rapidamente: “O nosso cinema preza pela qualidade, diversidade e é aquele que vai deixar o público cada vez mais a vontade, num ambiente amigável e mais propício possível para o diálogo de ideias”.

A falta da crítica cinematográfica

Durante o nosso bate-papo, Talmon relembra muitos dos momentos em que a presença da crítica foi fundamental para o cinema alternativo na época em que esteve no Cine Metrópolis. “Lembro muito bem que a crítica era muito presente. Tínhamos Hamylton de Almeida, um dos maiores críticos do país. Um cara inteligente, ácido e que entendia de cinema como ninguém, afinal ele também foi cineasta”.

Para Talmon, a crítica é importantíssima para o cinema alternativo, mesmo quando o crítico está tomado pelo ego. Diz também que sente falta das análises bem escritas como antigamente. “Mesmo com as suas particularidades, sua vivência e seu ego, é ele quem vai fazer o filme tal ser visto e conhecido. É ele que começa o ciclo que termina com o público tirando suas próprias conclusões. Hoje, infelizmente, é uma pena que sejam poucos a fazerem crítica”.

O Cinema para Talmon Fonseca Junior

“Desde pequeno, meu pai me levava para o cinema. Quando não podia, ele dava dinheiro para que eu e minha irmã pudéssemos ir”, conta Talmon. Ele disse que frequentava a quase todos os cinemas do Centro de Vitória, na época áurea dos cinemas de rua na capital.

Além disso, Talmon nos conta que a família dele sempre foi assídua na relação com a cultura. Ele disse que a sua formação foi complementada pelo cinema, literatura e outras formas artísticas, além da vivência e da experimentação. “Minha família, de certa forma, era bem consistente. Tínhamos diversos livros, uma verdadeira biblioteca. Sempre amamos a música e, claro, o cinema”.

Quando perguntado sobre o que ele define como cinema, ele é breve: “O cinema deve ser reflexivo, preocupado com o social e o existencial, explorando as particularidades do contexto em que ele está inserido. Deve fazer as pessoas entenderem o que acontece hoje e mudar as nossas vidas, o nosso foco e nossas decisões sobre nós mesmos”.

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