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Sinopse: https://filmow.com/a-chegada-t72189/

Sempre assisto filmes com certo receio. Raras são as vezes que aceito tudo que é projetado sem ao menos questionar qual a finalidade daquilo. Pode se engrandecer uma possível capacidade crítica, mas vejo mais como um pressuposto do que um dom, visto que para compreender categoricamente um filme é necessário se aproximar ao máximo de tudo que ele te propicia, para ao final ter uma visão totalizante. Talvez seja apenas questão de método, nada muito relevante no campo artístico. Fato é que todo este lenga lenga serve para poder dizer que no caso de A Chegada (Arrival, 2016) precisei, assim como a protagonista do filme, despir meu traje protetor, contrariando minhas manias, para conseguir dizer algo relevante sobre esta obra.

Gostaria de poder contribuir ao debate acerca deste filme, pois senti certa insuficiência no que foi amplamente dito até então, apesar de concordar com quase todas as análises que li e ouvi. Três elementos essenciais, a meu ver, – obviamente não li tudo que foi publicado – passaram praticamente batidos.

O primeiro destes é a realização do gênero. Certamente foram exaustivamente lembrados os grandes clássicos da ficção científica reverenciados em A Chegada, não preciso citar nenhum, nem mesmo quero entrar no mérito se esta obra alcança o patamar de seus primos bem sucedidos. O fato que quero rememorar, já que pelo visto foi esquecido, é que o segredo, para não chamar de essência, da relevância de um sci-fi não é a cientificidade bem explorada ou o tamanho da ameaça extraterrestre apresentada pelo filme, mas antes o que uma narrativa por vezes futurista ou hipotética diz sobre a nossa a condição humana ou das relações contemporâneas. Confesso que sobre a atual crise internacional este filme não consegue dizer nada novo. Sobre a humanidade, por outro lado, alcança uma reflexão arrebatadora e essencial. Mas vou me poupar de dizer agora o que quero dizer adiante.

Ainda no campo dos estudos sociológicos ou mesmo antropológicos, quem sabe até filosóficos, a segunda marca essencial deste filme é um traço de seu diretor. Pode ser apenas uma impressão minha, mas vejo em Denis Villeneuve certo apreço por espelhos. De cabeça cito, por ora, Politécnica, filme de 2009. A ideia de espelho me soa bastante interessante – talvez não seja a intenção do cineasta canadense – pois é através da nossa projeção em um objeto inanimado que podemos perceber detalhes sobre nós mesmos. Entendendo que a figura diante de nós não é imagem perfeita de nós mesmos, pois até em um espelho plano a projeção é enantimorfa, ou seja, o lado direito de realidade é o esquerdo da imagem refletida e vice-versa. Apesar de não aparecerem espelhos nesta película, o fenômeno da reflexão acontece desta vez no contato da Dra. Banks (Amy Adams) e Dr. Donnelly (Jeremy Renner) com os alienígenas, através de um vidro.  Há inclusive certo momento em que os seres de outro planeta repetem os movimentos de Ian Donnelly. Enquanto ela aprende a língua dos visitantes, acaba compreendendo questões de si própria. Posso inclusive afirmar que não apenas a personagem vivida por Amy Adams percebe questões antes ocultas. Enquanto o filme assume sua perspectiva, embarcamos no mesmo caminho e não seria exagero afirmar que levanta problemáticas próprias de toda vida humana.

A alegoria do espelho nos leva ao último e mais importante ponto desta obra. Assim como estes utensílios caseiros, o cinema também se usa da projeção da realidade, jamais a reproduzindo perfeitamente, para atentar a contradições por vezes veladas. E talvez seja por isso o fascínio de Villeneuve nestes objetos. Mas para além da similaridade entre a sala de contato com os extraterrestres com uma de projeção, vejo esta obra como um tratado cinematográfico. A arte do cinema é a arte da ilusão sobre o tempo. A noção temporal que vivemos corriqueiramente não equivale àquela projetada diante de nós, há uma manipulação do que é exibido para estabelecer a cronologia fílmica. A Chegada é, enfim, uma das grandes realizações desta ilusão, alcançando a partir de sua estrutura narrativa um novo paradigma cinematográfico, pois não apenas a cronologia interna da obra é muito bem explorada, como a nossa relação moderna com o tempo é posta em xeque.

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